"Nzambi a tu bane nguzu um kukaiela"

sábado, 15 de julho de 2017


Carmen Pereira (1937-2016) foi uma mulher preta e africana, nascida em Guiné-Bissau, que usou a sua vida para defender o seu povo e o seu território, nacionalista africana, guerrilheira e, por uma questão de princípios, uma pan-africanista por essência; integrou o movimento revolucionário, junto com Titina Sillá e Francisca Pereira, PAIGC (Partido Africano pela Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde) e, portanto, participou ativamente na dura guerrilha contra o colonialismo e racismo português. Chegou a ser, no ano de 1984, após a independência do país, presidente em exercício de Guiné-Bissau; entrando para a história como a primeira mulher a presidir um país africano, na era moderna, e única a presidir Guiné-Bissau. A luta sempre esteve presente na vida de Carmen Pereira, pois ele cresceu tendo como exemplo o seu pai que, com muitas dificuldades, se tornou um dos poucos advogados pretos existentes em Guiné-Bissau, naquela época, colônia de Portugal. Mas tarde ela haveria de se casar, ainda muito jovem, e o sentimento de indignação frente ao racismo branco e o nacionalismo preto que transpirava em todos fez com que o casal logo entrasse no movimento de libertação. Nesse primeiro momento a atuação foi moderada, pois ficaram no campo da análise e organização; o que mudou pouco tempo depois, uma vez que na medida que o colonialismo ia tomando formas mais agressivas a resistência radical e armada se fez necessária. E em 1962 a irmã Carmen Pereira entrou para o PAIGC e logo se tornou uma pessoa ativa e importante no movimento; com armas em punho. Devido a tradição de resistência, por parte das mulheres africanas, o PAIGC criou uma cultura que visava igualar homens e mulheres em suas fileiras, assim Carmen se tornou uma líder das mulheres e peça chave na luta por independência. A atuação de Carmen transcendeu os limites geográficos das colônias portuguesas e ela se tornou a líder e delegada na Organização Pan-Africana de Mulheres na Argélia (organização pan-africanista que agregava mulheres de várias partes da África); pelo seu protagonismo na luta de libertação, em muitos casos tendo a sua importância no mesmo nível que a de Amílcar Cabral, Carmen Pereira passou a ser duramente perseguida pela PIDE, polícia política de orientação fascista responsável por desmantelar a resistência nas colônias portuguesas, teve que, com o coração na mão por ter que abandonar os seus irmãos no campo de batalha, fugir do país. Nesse época, ela morou no Senegal, por um tempo, e logo depois partiu para estudar medicina na União Soviética. Após voltar da União Soviética, Carmen Pereira continuou os seus trabalhos junto ao PAIGC e após a independência ela ocupou vários cargos no governo, como por exemplo, Ministra da Saúde e Assuntos Sociais, Presidente da Assembleia Nacional, foi também responsável pela promulgação da Constituição da República de Guiné-Bissau, Presidente do Parlamento de Cabo Verde e Guiné-Bissau, membro do Conselho de Estado, Vice-Primeira Ministra e Presidente em Exercício, em 1984. Estudar e entender a história de Carmen Pereira, Titina Sillá e Francisca Pereira, é entender o papel das mulheres na causa pan-africana e na luta de libertação do povo preto, seja na África, seja na diáspora. Sabemos que a violência histórica imposta aos nossos ancestrais e aos nossos iguais, nos dias de hoje, não tem precedente na história da humanidade, entretanto, mais do que isso, é importante sempre lembrar que a resistência promovida pelo nosso povo preto também não tem precedentes na história. Carmen Pereira é uma referência pan-africana, pois ela poderia, em sua juventude, ter seguido outros caminhos que lhe apetecesse, porém ela trilhou o caminho da luta coletiva, em amor aos seus e não na busca por interesses próprios. Vida longa a essa nossa irmã preta; Carmen Pereira, uma pan-africanista por essência.

Andresa Maria de Sousa Ramos, mais conhecida como Mãe Andressa (1850-1954) foi uma mulher preta africana, nascida em Caxias, Maranhão, que liderou durante 40 anos a casa de culto aos voduns, divindades africanas do povo jeje, conhecido como a Casa das Minas (Querebentã de Zomadônu, nome em fon); durante todos esses anos ela manteve viva a cultura, o estilo de vida e a filosofia dos povos jeje (fon, mina e ewe), etnia originária do antigo reino do Daomê. Mãe Adressa foi a última princesa africana da linhagem direta do povo de língua fon; e ficou conhecida como uma das principais nochê (sacerdotisa da tradição de voduns) da diáspora africana e a quarta mulher a comandar a Casa das Minas; foi a última vodunsi-gonjaí e o seu nome africano, que segundo a tradição dos povos jeje é dado pelo próprio vodum, era Rotópameraçuleme. A Casa das Mina, terreiro de tradição essencialmente matriarcal, onde apenas as mulheres podem chefiar e comandar os trabalhos comunitários e religiosos, foi fundada no início do século XIX por Nã Agotimé, rainha africana do Daomé, mãe de Gezo, o rei do Daomé, que, após conflitos sucessórios, foi vendida para comerciantes de escravizados e trazida para a Bahia, ilha de itaparica, onde recebeu o nome de Maria Jesuína, e de lá foi para o Maranhão, onde fundou o templo destinado a cultuar os deuses e ancestrais do seu povo, especialmente o seu vodum familiar: Zomadônu. Andressa era descendente direta de Nâ Agotimé. Durante o infame comércio de gente preta para as Américas, foram trazidos para o Brasil africanos das mais variadas etnias e com as mais diversas tradições e complexos civilizatórios; dentre estas, as que mais se destacaram e criaram raízes profundas com frutos perenes foram as tradições dos n’kises, divindades dos povos banto, os orixás, divindades dos povos iorubás, e os voduns, divindades dos povos jeje. Pela dedicação e esforços de mulheres pretas, guerreiras, camponesas e rainhas, aqui convertidas em escravizadas e pequenas comerciantes, essas tradições civilizatórias foram preservadas; e a Casa das Minas, seja sob o comando de Nâ Agotimé, seja sob orientação e comando de Mãe Andressa, é a prova viva que a selvageria branca não conseguiu suprimir a nossa capacidade de resiliência e luta incansável e imbatível contra o racismo e o colonialismo branco europeu. O trabalho e as experiências religiosas dessas mulheres africanas que, não mais em suas terras, construíram templos religiosos, verdadeiros palácios ancestrais, para que os povos africanos de várias outras etnias pudessem reviver a suas tradições e reencontrar os seus deuses, parentes e pais, inquestionavelmente, são as mais autênticas experiências pan-africanas da diáspora, ao lado dos quilombos, portanto, entendemos que a irmã e sacerdotisa do culto aos voduns Mãe Andressa foi uma pan-africanista por essência, pois ela cultivou e trabalhou em prol de algo que pudesse agregar o povo preto; além de fazer o resgate direto das tradições do Daomé, fazendo da Casa das Minas um pedaço da África, agora, um território multiétnico, entre outras palavras, um pequeno Estado pan-africano.



Virgínia Leone Bicudo (1910-2003), foi uma mulher preta, por definição do viés de análise pan-africano, uma mulher preta-africana, nascida no Brasil no ano de 1910, o seu pai era um homem preto, filho de uma africana que sofreu nas costas o peso da escravização, e a sua mãe era uma italiana branca; entretanto, ela, consciente sobre a ideologia do branqueamento e tentativa do Estado branco de eliminar a chamada "mancha negra", nunca titubeou em relação a cor da sua pele e sua origem racial; segundo ela, a primeira coisa que ouviu, por parte de crianças brancas, quando saiu de casa foram as palavras: “Negrinha! Negrinha!”. Essas palavras impactou, marcou e definiu a vida e a carreira desta irmã, que foi educadora, trabalhou em escolas públicas, ministrando aulas de higiene pessoal e saúde, depois se formou em sociologia e se especializou na área de psicanálise, portanto, ela foi professora de escola pública e universitária, socióloga, cientista política, psicanalista e antropóloga social; seu objeto de estudo por excelência foi as relações raciais e o impacto do racismo na psiquê das pessoas pretas. Foi professora da USP, uma das primeiras professoras universitária negra no Brasil, além de ser professora também na Santa Casa de Misericórdia e na Escola de Sociologia Política. Ela confidenciou que foi buscar na sociologia a origem dos seus sofrimentos, imposto pelo mundo demoníaco do homem branco, para que a partir disso pudesse curar as suas dores pessoais; e nessa busca ela esbarrou em Freud e na psicanalise: o que mudaria a sua vida e a forma de enxergar o racismo. Falar de Virgínia Bicudo nos causa uma dor muito profunda, uma mágoa e o desespero de saber o quanto o nosso povo, sem nação ou terra, sofreu e ainda sofre nessa terra (para nós, nacionalistas pretos, essa parada bate forte pra caralho), pois fazer isso é transitar pelos cruéis labirintos da solidão, do desamparo e do constante sentimento de impotência que é ser preto na diáspora africana, principalmente neste inferno odioso chamado Brasil. Fala de Virgínia Bicudo é também falar do racismo, do epistemicídio (assassinato de um tipo de conhecimento), ou racismo epistêmico (diminuição de um tipo de conhecimento), e, principalmente dimensionar o quão cruel é o mundo branco para os descendentes de africanos: eles nos odeiam e só não nos matam em fornos porque a nossa capacidade de resistência os colocariam e situações complicadas; mas não nos iludamos, eles nos odeiam e o que puderem fazer para nos matar, nos apagar da história ou se apropriar do que criamos eles farão. Virgínia Bicudo foi uma visionária, vanguarda do estudo do povo preto dentro de uma perspectiva de agência e centralidade preta, ela foi a primeira pessoa preta, e mulher, a defender em uma acadêmia uma tese sobre as questões raciais no Brasil. Ela fez isso antes de virar moda com os brancos Florestan Fernandes, Oracy Nogueira, Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Roger Bastide, e vários outros; porém por força do racismo e do ódio anti-preto a sua obra e contribuição foi por eles e seus discípulos apropriada, excluída, invisibilizada e a sua figura foi jogada ao ostracismo, as vezes mesmo difamada e hostilizada por aqueles brancos que só criaram fama a partir das bases teóricas disponibilizadas pela nossa irmã Virgínia Bicudo. Por exemplo, em 1955, a UNESCO promoveu uma pesquisa no Brasil, sobre as questões raciais, a cargo de Florestan Fernandes e Roger Bastide, ambos brancos, supostamente não racistas, porém a contribuição de Bicudo, pioneira e referência no sobre questões raciais no Brasil, ficou excluída e marginalizada, indicada apenas como leitura complementar. Numa lógica de honestidade e autoridade acadêmica, Bicudo seria a pessoa mais recomendada a dirigir esta pesquisa e relatório. Mas foi rejeitada. Isso por parte de brancos supostamente “amigos dos pretos”. Imagina os brancos que eram inimigos dos pretos. Isso é racismo e genocídio em sua mais completa crueza. É imperativo que resgatemos essa mulher preta, isolada, porém atrelada aos seus irmãos pretos em dor, espírito e compromisso ancestral e atávico. Se hoje, com o advento das facilidades proporcionadas pela internet, não conhecemos a irmã Virgínia Bicudo, mesmo os mais estudados do assunto, imagina em outros tempos, tempos em que não eramos alfabetizados, imagina a solidão de uma pessoa preta que pensou a mente de um povo que ela sabia que não ia ter acesso aos seus escritos e portanto não teriam as condições necessárias para se curar das dores como ela quase conseguiu. Quase conseguiu, porque, mesmo após o amadurecimento intelectual, ela pensou em cometer suicídio, mais de uma vez, devido a pressão do mundo branco que chegou ao ponto nefasto de espalhar panfletos pelas ruas difamando-a. Parece surreal, parece mentira, mas não é, foi real; imagina a cena: psicanalistas brancos distribuindo panfletos pelas ruas de São Paulo difamando uma irmã preta que foi pioneira na psicanalisem, uma irmã que criou as bases para expansão e difusão da psicanálise do Brasil, chamavam-na de charlatã e falsária! Quantos dos nossos não cometeram suicídio por não suportar o ódio destilado pela dissimulação agressiva do mal? A dissertação de mestrado dela, apresentada na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, com o título de Estudo de Atitudes Raciais de pretos e mulatos em São Paulo, em 1945, foi pioneira e revolucionária e, já na época, demoliu não somente o mito da democracia racial brasileira, mas principalmente o falso discurso dos sociólogos marxistas e funcionalistas de que o chamado problema do negro era social, de classe, pois ela, estudando o caso de 31 pessoas, além de algumas famílias de classe média, que tinham seus filhos em escolas públicas, constatou que mesmo ocorrendo mobilidade social as pessoas pretas não deixavam de ser hostilizadas pelas pessoas brancas, as vezes com situações econômicas mas adversas. Antes de Frantz Fanon, e isso é um dado revelador, Virgínia Bicudo já defendia a tese que o racismo era uma patologia que causava graves danos mentais nas pessoas negras, que, fragilizadas pelas agressões raciais, não conseguiam desenvolver todo o seu potencial humano. Bem, paremos por aqui, seja como for, principalmente para esses jovens pretos que estão chegando, torna-se necessário o resgate dos nossos, o resgate dessa nossa irmã preta, neta de uma africana escravizada, alguém que viveu isolada dos seus e cercada pelo demônio, que a todo momento tentou derrubá-la e quando não conseguiu, contrariados pela força da inteligência e inovação desta africana, tentou embranquecê-la: chegando a colocar nos registros oficiais “Virgínia Bicudo, socióloga e psicanalista de cor branca”. Hoje, a obra dela está sendo estudada e sua vida escrafunchada nas universidades de psicologia e sociologia, porém apenas nas mãos de pessoas brancas.

Audley Moore, nome de nascimento, e Queen Mother Moore, nome de luta e título recebido pelos Ashanti (1898-1997) foi uma preta africana, nascida nos EUA, que, ativista e revolucionária da UNIA (Associação Universal para o Progresso do Negro), de Marcus Garvey, dedicou os seus quase cem anos de vida na defesa do projeto político do nacionalismo preto e do pan-africanismo; também, como líder do povo preto, ela lutou pelos direitos civis e foi uma das fundadoras da República Nova Áfrika; organizadora de greve, promotora de campanhas anti-linchamentos; e, como líder comunitária, ela organizou um movimento que impedia que famílias pretas fossem despejadas e quando essas famílias eram despejadas o seu movimento colocavam os móveis e outros utensílios dentro das casas e faziam piquetes, impedindo que os senhorios se aproximassem ou as retirassem novamente. Nascida no sul, com um histórico de violência branca na família, pois quando criança ouviu as histórias sobre o linchamento de um dos avós e o estupro da avó, uma africana outrora escravizada, ela sentiu na pele os horrores praticados pelos demônios contra os seus irmãos de cor e origem e isso influenciou em sua vida de entrega, dedicação e luta. Por conta do racismo, Queen Moore teve que abandonar muito cedo a escola, para trabalhar e ajudar a família, e a imagem que mais marcou aquela criança era a humilhação, prisões arbitrárias, espancamentos e linchamentos dos homens pretos, humilhação e desprezo; ela conta que naquela época era muito comum os policiais brancos prenderem os homens pretos para depois estuprarem as suas mulheres. Perdida e se sentindo impotente neste Sul branco e segregado, após ouvir, em Nova Orlens, um discurso de Marcus Garvey ela se converteu ao nacionalismo preto e se mudou, após peregrinação por várias cidades dos EUA, para o Harlen, Nova Iorque, onde se filiou à UNIA e iniciou a sua longa jornada de luta rumo a liberdade do povo preto. Neste contexto, ela participou da organização da Primeira Convenção Internacional de Garvey; foi acionista da Black Star Line (empresa marítima criada por Marcus Garvey que tinha como objetivo estreitar as relações entre a África e a diáspora africana, assim como possibilitar o retorno dos africanos para o continente mãe); fundadora e presidente da Associação Universal das Mulheres Etíopes, do Comitê de Reparações para Descendentes dos Escravos dos EUA, da Fundação Cultural Afro Americana e co-fundadora da Associação de Harriet Tubman, entre outras ações de autodeterminação; por esses feitos, Queen Moore se tornou uma lenda na história africana no século XX. No ativismo político, dentro de uma perspectiva pan-africanista e internacionalista, ela foi até a ONU acusar os Estados Unidos de genocídio e exigiu autodeterminação, reparação e, como nacionalista preta, principalmente terra, para os africanos nos Estados Unidos que eram descendentes dos africanos escravizados durante o tráfico transatlântico; outros pontos inseridos em sua petição era que o governo americano deveria garantir o subsídio completo para os africanos que desejassem voltar para a África. Solicitações essas que não foram atendidas pela supremacia branca, como já era de se esperar, entretanto, tais elementos serviram de subsídios para direcionar a luta preta nos Estados Unidos e foi uma antítese ao racismo, elevando tanto a autoestima quanto programas políticos que de fato trouxeram avanços para os pretos naquele país. Durante um tempo, após o desmantelo da UNIA e prisão e deportação de Marcus Garvey, por parte do governo supremacista dos EUA, ela se aproximou do Partido Comunista Americano, mas quando ela percebeu que tal partido tinha como programa político apenas a utilização dos pretos como massa de manobra, automaticamente, Queen Moore se afastou e continuo de forma autônoma o seu trabalho; o seu pan-africanismo e nacionalismo preto se tornaram mais consistentes por causa dessa experiência traumática de racismo velado. E, nessa época, ela defendeu enfaticamente a revolta Mau-Mau do Quênia e condenou publicamente o governo britânico pelo massacre perpetrado contra os povos colonizados da África, principalmente contra os o povo kykuyu – etnia base dos Mau-Mau. Neste caminho, enquanto isso, aos poucos ela foi se aproximando de Malcolm X e suas ideias. Por decorrência disso, ela se filiou na OUAA (Organização da Unidade Afro-Americana, organização pan-africanista e nacionalista preta criada por Malcolm X, após a sua ruptura com a Nação do Islã, que tinha como objetivo a autodeterminação e a libertação dos pretos nos EUA e ajuda permanente aos pretos de todo o mundo) e passou a lutar nas comunidades implantando escolas que defendessem tal programa político. Era de fato uma rainha africana, uma incansável pan-africanista por essência. Pela sua luta pan-africana, no ano de 1972, ela foi homenageada pelo povo Ashanti, durante o funeral de Kwame N’krumah em Gana, e recebeu o título de chefe Rainha Mãe; nesta dimensão internacional ela lutou pela liberdade de Nélson Mandela e pelo fim do apartheid que assolava as terras da África do Sul e mantinha o povo preto em uma espécie de escravidão contemporânea. Participou do sexto Congresso Pan-Africano, na Tanzânia. Outra característica dessa perseverante nacionalista era o seu repúdio a política imperialista dos EUA e a busca incansável da implementação dos direitos humanos. A sua última aparição pública, sempre na luta pelo seu povo, foi em 1995 na Marcha de um milhão de homens, organizada pelo nacionalista preto e ministro da Nação do Islã Louis Farrakhan. Como podemos notar, as mulheres africanas foram linha de frente da luta pan-africanista no mundo, seja nos quilombos, seja nos candomblés ou mesmo dentro da lógica de luta oferecida pela modernidade ocidental, enfim, elas sempre estiveram lá, lutando não somente pelos direitos das mulheres mas pelo direito do povo preto em sua totalidade. Que honremos essa nossa grande rainha-mãe, uma pan-africanista por essência, que, quando questionada sobre a condição do preto no mundo, dizia aos mais jovens:  “não havia mais nada a fazer do que lutar”. Tal frase traduz a vida desta mulher que dedicou a vida ao seu povo. O que causa estranheza e mesmo tristeza é saber que muitas pessoas pretas conhecem e reverenciam referências brancas que lutaram pelo direito das mulheres brancas e contra os pretos mas nem sequer ouviram falar ou tensionaram buscar a história de irmãs como Queen Mother Moore; isso mostra o quão colonizados nós somos.

Hilda Dias dos Santos, mais conhecida como Mãe Hilda Jitolu, nome que recebeu no candomblé em 1942 (1923-2009), foi uma irmã preta-africana, nascida em Cosme de Farias, Salvador, BA, que, além de Iyálorixá do candomblé de tradição Jeje, foi, seguindo a linhagem das grandes africanas que criaram as bases do pan-africanismo por essência em terras baianas, uma líder exemplar de sua comunidade e ativista da cultura e das tradições africanas no Brasil e combatente visionária na luta anti-racista. No ano de 1952, após a morte do babalorixá que cuidava do seu ori, ela fundou o terreiro de candomblé de tradição jeje Ilê Axé Jitolu, no Curuzu, bairro da Liberdade, Salvador. Local de onde sairia, anos mais tarde, o Bloco Afro Ilê Aiyê, tendo Mãe Hilda Jitolu a frente da iniciativa e coordenação dos trabalhos; além de mentora intelectual e filosófica das temáticas abordadas pelo bloco, que tinha sempre a África e a experiência dos africanos na diáspora como referência última. Muitas pessoas pretas tomaram contato com a história da África e dos pretos no Brasil, agregando ferramentas teóricas na luta contra o racismo branco, por intermédio das músicas e dos desfiles do Ilê Aiyê; seja em Salvador, seja em outras partes do Brasil. Mãe Hilda, por meio de sua dedicação e trabalho, sempre guiada pelos ancestrais e deuses africanos, difundiu o amor e o orgulho preto, assim como a filosofia deixada pelos antigos africanos escravizados e a importância de se resgatar uma estética africana no dia a dia das pessoas pretas, não somente nos desfiles ou nas festas de candomblê. Em nível nacional, na luta anti-racista e pelo resgate da história e cultura africana, Mãe Hilda articulou politicamente, em várias esferas do movimento artístico, negro e no interior do próprio Estado, a criação do Parque Memorial Zumbi dos Palmares, em Alagoas; em homenagem ao herói Zumbi e, principalmente, ao grande Quilombo dos Palmares, uma das maiores experiências pan-africanistas das Américas. Assim como muitas outras irmãs, em sintonia com o entendimento da importância da educação na superação do racismo e desigualdades sociais, em 1988, ela fundou a Escola de Alfabetização Hilda Jitolu, que tinha como objetivo alfabetizas as crianças pretas que eram filhas dos adeptos da casa, do Ilê Aiye e da própria comunidade do Curuzu; e, em 1995, também dentro do Ilê Aiyê, ajudou na implementação do Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê; isto é, para facilitar a educação das crianças pretas, o Ilê passou a sistematizar, em sequências didáticas, as propostas pedagógicas, centradas em uma lógica civilizatória africana e na luta dos pretos contra a escravidão e racismo, que antes eram inseridas apenas nas músicas e nos desfiles do bloco afro. Este projeto pedagógico, não se limitou à Escola de Alfabetização Hilda Jitolu, mas, transcendendo a Senzala do Barro Preto, como é conhecido o local onde o Ilê faz os seus ensaios e apresentações, que é também a escola, foi parar nas salas de aula das escolas públicas das periferias de Salvador. Isso muito antes da implementação da Lei Federal 10.639/03, que versa sobre a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileiras nas salas de aulas das escolas públicas e privadas de todo o Brasil, em todas as suas modalidades: infantil, fundamental, médio e superior. Entretanto, cabe uma atenção especial à atenção que tanto a Mãe Hilda quanto o Ilê Aiyê dispensava à alfabetização e o letramento das crianças pretas que a partir dali tinham mais ferramentas para sobreviverem em um mundo hostil e de mentalidade escravagista, como é o caso de Salvador, BA faziam parte de tal projeto. Na comemoração dos 30 anos do Ilê Aiyê, no ano de 2004, o tema do desfile foi a pessoa e a história desta grande matriarca africana: Mãe Hilda Jitolu. Mesmo já com idade avançada, foi ela quem coordenou espiritualmente os trabalhos de abertura do desfile; como vinha fazendo desde a fundação do Bloco Afro Ilê Aiyê, em 1974. É muito difícil, em poucas palavras, traduzir o significado da luta de uma matriarca africana como esta, que, apesar de todas as adversidades impostas, seja pelo racismo, seja pelo machismo e ou mesmo pela miséria oriunda de um capitalismo selvagem e bestial, conseguiu operar mudanças significativas no seio de sua comunidade e povo. Muitas pessoas pretas passaram a andar de cabeça erguida, se sentir bonita, pertencentes a este mundo, com iguais capacidades cognitivas e estética, pelos esforços desta nossa irmã preta-africana; portanto, acreditamos que a Mãe Hilda Jitolu, hoje não mais entre nós, pois habita a dimensão dos ancestrais, deve ser lembrada e resgatada, não somente em nossa memória, mas em nossas ações, em nossas práticas educacionais e pedagógicas, junto aos nossos irmãos de cor e origem. Mãe Hilda Jitolu deve ser lembrada como exemplo a ser seguido: pois ela foi uma verdadeira pan-africanista por essência.

Mamphela Ramphele (1947-) foi uma mulher preta e africana, nascida em uma África do Sul dividida e oprimida por uma minoria branca e assassina, que percorreu uma longa jornada rumo a ascensão política e pela liberdade e dignidade do seu povo preto; nesta caminhada, ela atuou como ativista política, médica de grandes instituições e comunitária, acadêmica, antropóloga, chanceler de universidade, empresária, executiva, mulher de negócios e autora de livros variados. Mas não vamos falar da sua vida pós-apartheid, que a levou a ser reitora de universidade, gerente-executiva do Branco Mundial, fundadora de partido político e candidata a presidente da República, em oposição ao CNA. Vamos falar de sua juventude a na luta que travou junto com Steve Biko e Barney Pityana, no Movimento da Consciência Preta e na Organização dos Estudantes Sul Africanos. As bases da ativista e Dra. Mamphela Ramphele estavam em sua cultura ancestral e na educação que recebeu dos seus pais, Rangoato Rahab, mãe, e Pitsi Eliphaz Ramphele, pai, ambos professores de escolas públicas; que a incentivaram a estudar e nunca achar que tinha chegado ao fim. A política de violência europeia vinha de longa data na África do Sul, fato esse que se agravou com o advento da política segregacionista do apartheid, imposta pelo Partino Nacional, em 1948, um ano após o nascimento da pequena Mamphela. As cenas presenciadas por aquela criança preta, assim como a humilhação sofrida por todos os pretos, proibidos de entrar em alguns ambientes, de usar banheiros, bebedouros e de transitar livremente pelas terras ancestrais, a violência policial e os baixos salários, as terríveis condições de vida, e, principalmente, uma cena que chocou aquela jovem criança, a proibição que alguns pretos tiveram de enterrar os seus familiares em terra sagrada, ou seja, essa gama de situações foram sendo introjectadas na estrutura de pensamento da guerreira Mamphela e quando ela se viu na universidade, jovem, com ânsia de mudança, tais sentimentos afloraram e foram canalizados em ativismo político firme a nacionalista: Mamphela Ramphele foi uma pan-africanista por essência. Nesta época, assim como Steve Biko, Mamphela Ramphele cursava medicina e participava do movimento estudantil; Biko, com quem mais tarde Mamphela Ramphele iria se relacionar e ter dois filhos (Lerato e Hlumelo), rompeu com o movimento de estudantes de caráter misto (União Nacional de Estudantes Sul Africanos) e formou a Organização dos Estudantes Sul Africano, de caráter nacionalista preto e pan-africano: estudantes brancos eram proibidos de participar desse movimento; concomitantemente, Steve Biko lança as bases da consciência negra e cria o Movimento da Consciência Negra, para atuar fora da universidade e junto ao povo nas comunidades e bantustões. Mamphela, filiada a ambos os movimentos de Biko, passou a ter um papel de centralidade na difusão das ideias da consciência negra e no fomento da indignação e rebelião contra a supremacia branca que era representada pelo apartheid; pela sua inteligência e ativismo político, ela foi eleita presidente de seção da Organização dos Estudantes Sul Africano). Ela, em 1972, concluiu os estudos de medicina, se tornando médica, e consciente do dever que tinha diante dos seus irmãos de cor e origem assim como ciente da importância de ser dar uma devolutiva à comunidade, ela voltou o seu trabalho para a comunidade preta, perseguida e segregada. Exercendo a medicina e fazendo o ativismo político, um trabalho de formiguinha na tentativa de conscientizar os jovens pretos sobre a sua história, beleza e resistência, foi acusada de terrorista, apenas por portar livros julgados como subversivos e proibidos. A partir disso, banida e vigiada, proibida de se reunir com um grande número de pessoas ou integrar a qualquer tipo de organização, ela intensificou o trabalho clandestino e comunitário, fundando uma organização clandestina que tinha como objetivo difundir as ideias sobre a importância do trabalho comunitário ligado a saúde; nesse processo ela diluia a luta política, a consciência preta o nacionalismo preto. Sempre na clandestinidade, ela viajou por toda a África do Sul levando a mensagem de esperança aos jovens, chegando a sair do país para denunciar o genocídio existente em seu país e articular acordos. Na medida que a resistência ia enfraquecendo o apartheid, Mamphela Ramphel conseguiu um pouco mais de tranquilidade e, seguindo os ensinamentos dos pais, voltou a estudar, em que fez Comércio, Pós-Graduação em  Saúde Tropical e mais uma graduação em Saúde Pública; fez doutorado em Antropologia Social e passou a escrever livros sobre saúde, sociologia e politica. Com o fim da política de apartheid, Mamphela Ramphel teve uma carreira promissora dentro e fora da máquina. Sobre tudo isso, é importante estudar as nossas referências para entender quais são os nossos erros e acertos; no final da trajetória política Mamphela Ramphel esteve ligada a instituições do Estado e mesmo instituições brancas e privadas, neste ponto, cabe sim uma crítica a tal postura, pois sabe-se que a supremacia branca usa de artifícios do demônio pra seduzir e cooptar os mais rebeldes; que fiquemos atentos diante desses artifícios; seja como for, a irmã Mamphela Ramphel teve um papel importante, na década de 70 e 80, momento crítico da política racista sul-africana, momentos de desilusão e falta de perspectiva; enfim, tanto Mamphela Ramphele, quanto Steve Biko, desempenharam o papel de restituir no seio do povo, de suas comunidades, o amor-próprio, o orgulho e o sentimento de mudança, tanto naqueles jovens quanto em seus velhos pais. Tempos depois, resultado do trabalho direto do movimento de Steve Biko e Mamphela Ramphele, esses jovens derrubaram o apartheid; infelizmente, os lideres e burocratas do Congresso Nacional Africano não souberam conduzir o processo e o poder continuou nas mãos dos brancos; mas essa é outra história. Em 2004, Mamphela Ramphel foi eleita uma das 100 mulheres mais importantes da África do Sul. Que honremos e respeitemos essa nossa pan-africanista por essência: Mamphela Ramphele.



Frances Ellen Watkins Harper (1825-1911) foi uma mulher preta-africana, nascida livre em uma América escravista, na cidade de Beltimore, Maryland, que, além de ferrenha abolicionista, sufragista preta e defensora do direito das mulheres pretas, foi professora, poeta, contista, ensaísta e autora de livros diversos; defendia abertamente que o Estado tinha o dever de operacionalizar reformas progressistas para ressarcir e inserir os ex-escravizados; o incluível foi que ela fez tudo isso em um país patriarcal, machista, extremamente racista e escravista. Fundadora de uma organização política de mulheres pretas, por nome de Associação Nacional de Mulheres de Cor, em 1894. Ela defendia o direito das mulheres e tinha polêmicas com as sufragistas brancas que além de não apoiarem as mulheres pretas ainda defendiam os linchamentos dos homens pretos. Uma das principais bandeiras da organização polítca de Frances Harper era pressionar o governo para a aprovação de uma lei anti-linchamento. Seu primeiro livro de poesia, escrito aos 20 anos de idade, foi Forest Leaves (1845); porém o reconhecimento e fama viria anos mais tarde com o popular Poems on Miscellaneous Subjects (1854), reimpresso várias vezes. Fora da poesia, a sua principal obra foi o romance Iola Leroy, publicado já em idade avançada, aos 67 anos; considerado o primeiro romance de um africano nos Estados Unidos. Órfãs de pais, ela foi criada pelos tios; e é nessa época, na infância, que se cria as bases psicológicas, e nisso ela teve a forte influência do seu tio, o abolicionista Rev. William Watkins, que era também um ativista de direitos civis do pretos libertos. Como abolicionista, a principal atividade de Frances, como integrante e palestrante da Sociedade Americana Anti-Escravidão, foi ajudar na fuga de africanos escravizados na Estrada de Ferro Subterrânea rumo aos estados do norte e Canadá. As estradas de ferro subterrâneas era um complexo de tuneis, construídos, nos fins do século XVIII e durante parte do XIX, por africanos escravizados e abolicionistas, que ligavam o sul escravista ao norte que, até então, havia abolido a escravidão africana e ao Canadá, país em que não havia o regime escravagista; estimativas apontam que cerca de 100.000 africanos conseguiram a liberdade usando de tais meios de fuga. Após a Guerra de Secessão (1861-1865), que estabeleceu a abolição da escravidão africana nos Estados Unidos da América, a irmã Frances Harper, que tinha a sua área de atuação no norte, passou a viajar pelos estados do sul para acompanhar a situação social, econômica e cultural dos africanos recém-libertos. Tudo que ela via, toda a crueldade que pesava sob as costas desses africanos, como humilhação, fome, violência, prisões arbitrarias, linchamentos e estupros, por parte de brancos derrotados e ressentidos, verdadeiros “demônios supremacistas!”, como brandou, um século depois, o irmão Malcolm X, enfim, tal situação era descrita em seus ensaios, poesias e produção literário por um todo. Se teve alguém que conseguiu captar a alma das pessoas pretas, assim como as suas angustias e esperanças de fuga para o norte, foi a irmã Frances Harper: uma pan-africanista por essência; pois, famosa e prominente com a sua produção literária, ela poderia se dar ao luxo de desfrutar os louros da fama no norte, longe da perseguição dos confederados, embriões da Ku Klux Klan, porém como era uma irmã amante de sua origem e povo, uma autêntica pan-africanista por essência, ela se viu na obrigação de estar junto aos seus e auxiliá-los no que fosse possível, mesmo que fosse apenas descrevendo para o restante do país as terríveis condições de vida que estavam sendo impostas aos homens e mulheres que construíram e mantiveram o país por quase trezentos anos. Frances Harper serviu de inspiração e referência para muitas mulheres pretas que no decorrer do século XX, ao lado dos homens pretos, lutaram uma batalha titânica contra os brancos mais poderosos do mundo, sem medo e sem retroceder, muitas das vezes vencendo, apesar de toda a adversidade imposta pelo ocidente. Como dizem as irmãs pretas mais velhas: “nossos passos vem de longe”.

Harriet Tubman, nascida com o nome de Araminta, (1822-1913) foi uma rainha preta-africana, uma guerreira máxima na luta pela liberdade dos africanos massacrados pela escravidão, uma das maiores e mais corajosas mulheres pretas que pisaram nessas terras de cativo e infâmia, não existe outra definição para essa nossa irmã; conhecida pelos seus irmãos de cor e origem, inseridos em uma tradição colonialista de um cristianismo cruel porém passível de vários reinterpretações, como a “Moisés do Povo Preto”, devido a sua importância como abolicionista e uma das principais articuladoras das lutas e fugas dos africanos escravizados nas estradas de ferro subterrâneas; conduzindo gerações de irmãos à liberdade. A famosa estrada de ferro subterrânea era um complexo de tilhos de trem, estradas clandestinas, trilhas, rios, casas, pessoas anti-escravistas e demais estruturas usadas pelos africanos escravizados e abolicionistas, entre o século XVIII e XIX, para saírem de um sul escravista e chegarem ao norte, até então estruturado no trabalho livre e assalariado, e também ao Canadá. A irmã Harriet Tubman nasceu na condição de escravizada, porém de espírito rebelde e indomável, uma pan-africanista por essência, futura abolicionista racial, fugiu da escravidão ainda muito jovem. O seu senhor de escravo “homem branco demônio”, usando o conceito de Malcolm X, era um homem cruel, como todos os senhores de escravos eram, e espancava muito a pequena Harriet. Certa vez, na cidade onde vivia, um senhor de escravos lhe acertou a cabeça, com um peso de ferro, e lhe deixou irmã sequelas para o resto da vida, tais como tonturas, dores crônicas da cabeça e dificuldade para dormir, e crises de epilepsia. Pelas suas constantes fugas a irmã carregava no corpo as marcas do açoite, que era prova da maldade branca e de sua rebeldia de africana livre. E não se dando por satisfeita, após a sua fuga final, mais de uma vez, para ser mais exato um total de treze missões clandestinas, ela voltou ao local de cativo para resgatar famílias inteiras e amigos (segundo registros foram 70 famílias de escravizados que ela conduziu à liberdade); era uma quilombola solitária e perseverante e, segundo as histórias do mais velhos, nunca havia perdido um passageiro em suas ajudas de fuga. Ela conseguiu libertar toda a sua família e retirá-la do estado. Essas ações geravam muito ódio por parte dos senhores de escravos que ofereciam recompensas altas pela sua cabeça. No entanto, isso não amedrontava a irmã Harriet. Durante a Guerra de Secessão, também conhecida como Guerra Civil, que pôs fim a escravidão, Harriet Tubman foi sentinela armada, atiradora e espiã do Exército da União contra os confederados do sul. Considerada a primeira mulher, nos EUA, a comandar uma tropa armada, em uma guerra oficial, ela, em uma de suas incursões, libertaram, junto com sua tropa, um total de 700 africanos escravizados. Dentre as suas ações arriscadas, ela ajudou o abolicionista John Brown a recrutar revolucionários para que pusessem em prática a invasão do depósito de armas em Harpers Ferry visando acabar com a escravidão via luta armada. Após o fim da escravização, ela se dedicou a denunciar as condições de vida dos ex-escravizados, lutar pelo direito de voto das mulheres pretas e ajudar os ex-escravizados a arrumarem emprego. Como uma mulher africana, mesmo fora de sua matriz cultural, possuía uma forte sensibilidade religiosa e tinha visões que, segundo ela própria, eram premonições divinas. Após as suas ações políticas, e mesmo de guerra e enfrentamento direto à escravização africana no sul, ela passou o resto da vida em uma casa de repouso, para africanos abandonados ou mutilados pela guerra e escravidão, que havia sido criada por ela no auge de sua agitação política. Hoje em dia, a irmã Harriet Tubman é considerada uma das maiores heroínas dos pretos e da humanidade (a nossa insignificância no mundo se potencializa ao conhecer a vida e a obra desta mulher preta-africana, uma incansável combatente, ao passo que saber que carregamos no corpo a mesma cor, origem e história desta mulher nos enche de orgulho e vontade de se manter em movimento) e hoje é lembrada e honrada tendo o seu nome em museus, parques nacionais, asteroides, uma infinidade de escolas, monumentos; além de esculturas espalhadas pelos EUA, óperas e livros foram produzidos em honra aos seus feitos; a sua casa hoje é um templo e museu que recebe visitantes o ano inteiro; um filme está sendo produzido tem como enrendo a sua vida e obra; ela é cultuada em igrejas pretas e lembrada pelos mais velhos como alguém que deve ser seguida em energias e ações.

terça-feira, 11 de julho de 2017


"Precisamos aceitar que os limites dos tiranos são   determinados pela resistência daqueles a quem oprimem. Enquanto nos dirigimos ao branco, mendigando, com o chapéu na mão, nossa emancipação, estaremos lhe dando mais mais autorização para que continue com seu sistema racista e opressor" Steve Biko

segunda-feira, 10 de julho de 2017



Antonieta de Barros (1901-1952) foi uma mulher preta-africana, filha de mulher africana que sentiu no corpo o ferro dos grilhões e os açoites do mal, educadora, jornalista e política de carreira, que lutou dentro do Estado e fora dele pela educação de pessoas pobres, que, pelo processo histórico de colonização, escravidão e racismo, é formado em sua grande maioria por pessoas pretas, sendo assim, podemos dizer, sem risco de erro, que a irmã Antonieta de Barros lutou pela alfabetização e educação de crianças pretas; assim como, em consonância com a nascente Imprensa Negra e Frente Negra Brasileira, pelos direitos do povo preto e das mulheres, em especial. Uma das especificidades do racismo no Brasil é negar a questão racial e fazer apologia a um falso discurso canalha que a questão é social e não racial, entretanto, a raça ocupa um local de centralidade em todas as relações no Ocidente, logo, também no Brasil. Antonieta de Barros foi uma das pioneiras na luta institucional contra as opressões de raça e gênero. Nascida em Florianópolis, Santa Catarina, no seio de uma família muito pobre, em um país recém-saído de uma escravização infame e secular, órfã de pai ainda muito cedo, essa nossa irmã, encontrando forças na herança africana de sua mãe, teve que trilhar um longo caminho rumo à superação das dificuldades pessoais e ascensão política, inteiramente dedicada à construção de uma terra mais justa e equilibrada. Logo após concluir os estudos, em 1922, observando o descaso do Estado em relação a uma educação pública destinada aos negros, ela fundou o Curso Particular Antonieta de Barros, que tinha como objetivo oferecer alfabetização e letramento para as pessoas negras; tal iniciativa educacional transcendeu a sua morte, em 1952, e funcionou até o ano de 1964. Imagina quantos irmãos e irmãs pretos e pretas não se alfabetizaram e com isso tiveram uma vida mais amena e menos sofrida! As revoluções as vezes operam no interior do Estado na vida das pessoas. É importante dizer que na diáspora, a educação formal é uma das principais ferramentas de superação das desigualdades sociais para as pessoas pretas (sabemos que a revolução não será feita por meio da educação mas menos ainda sem ela; em uma sociedade liberal e meritocrática a educação é imprescindível, pelo bem ou para o mal, para capacitar e inserir as pessoas no mercado de trabalho agregando mais valor a sua mão de obra). Fora deste curso popular e independente, Antonieta de Barros ministrou durante muitos anos aula de português e literatura em escolas e institutos públicos; além do magistério ela foi diretora de escola. No campo político, devido a grande popularidade que ganhou junto a sua gente e demais pessoas pobres da época e pela sua luta incansável pela educação e cultura, em um contexto no qual o Brasil buscava a todo custo a modernização das estruturas públicas, ela se elegeu como Deputada Estadual, em Santa Catarina, pelo Partido Liberal Catarinense; sendo assim, ela foi a primeira deputada preta deste país túmulo e a primeira deputada mulher por Santa Catarina. Hoje que a democracia burguesa está desgastada e já mostrou para o que veio tal feito pode ser irrelevante, mas, fugindo do anacronismo, se analisar para a época tal fenômeno foi um feito, principalmente porque o voto feminino tinha sido recém-instituído. No cargo, ela foi constituinte em 1935 e dedicou o seu trabalho à Educação, Cultura e Funcionalismo Público. Com a Ditadura do Estado Novo, implantada por Getúlio Vargas, em 1937, ele deixou de atuar dentro do Estado como política e passou a se dedicar ao seu projeto de alfabetização e letramento. Com o fim do Estado Novo, ela se candidatou e mais uma vez, agora como suplente, se tornou deputada estadual. Neste período ela defendeu a racionalização do Estado, lutou pelo fim do nepotismo, dos favorecimentos pessoais e do apadrinhamento dos cargos públicos (uma prática muito comum na história da República no Brasil), e defendeu a concessão de bolsas de estudos destinados aos alunos pobres, a maioria negra. Se analisarmos, ela estava na vanguarda de uma lógica de ações afirmativas e políticas públicas ligadas à educação que somente seriam implementadas após o desmantelo do mito da democracia racial brasileira, nos fins do século XX e início do XXI. Como ativista política e cultural, e também como jornalista, a irmã preta-africana Antonieta de Barros fundou e dirigiu, atuando principalmente na coluna de crônicas, o jornal A Semana, de 1922 à 1927. Os temas de suas crônicas eram o racismo velado existente no Brasil, a condição caricata dos políticos da nação e o machismo hegemônico, herança de um regime patriarcal e escravista. Além disso, com o pseudônimo de Maria da Ilha, ela fundou e dirigiu a revista Vida Ilhoa, que era publicada de quinze em quinze dias. E em 1937, se arriscando como autora, escreveu o livro Farrapos de Ideias. Esse é um pequeno apontamento sobre a vida dessa nossa irmã preta, filha de africana e por definição, africana também, que viveu em uma terra estranha, entre homens brancos, escravistas e estupradores, carniceiros empedernidos, uma terra hostil aos pretos e mais ainda às mulheres pretas, mas com a coragem de rocha e dedicação de rio ela travou uma batalha para melhorar a vida dos seus irmãos de cor e, pela política de branqueamento, de quebra ainda ajudou os tão ingratos brancos pobres que jamais reconheceram os seus privilégios históricos. Seja como for, entendemos que essa irmã, mesmo não tendo um discurso racial contundente, fruto da politica racial brasileira que confunde todos com sua dissimulação assassina, foi uma pan-africanista por essência, pois, mesmo acendendo ao poder, ela jamais esqueceu de onde saiu e muito menos quem era a sua gente. Assim como nos EUA, no Caribé ou África, nosso povo, tendo as mulheres como ponta de lança, travou uma longa jornada de luta e rebeldia, como disse o nosso irmão Malcolm X, "por todos os meios necessários...".
"O Estado com modo de produção asiático, nascido como consequência dos grandes trabalhos hidráulicos, foi descrito por Marx e Engels. Seu modelo de maior sucesso foi o estado egípcio faraônico, portanto, com rigor, este tipo [de Estado com tal modo de produção] deveria ser denominado 'estado de tipo africano' ".

A cada página uma lapada. Entenda que toda a análise feita pelo colonizador está errada. A começar pelas nomeações. Leiam Diop, pelo amor de deus.

Livro: Civilização e barbárie, página 177.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Em diversos países do mundo na data de 19/05 celebra-se o Malcolm X Day

Em diversos países do mundo na data de 19/05 celebra-se o Malcolm X Day. Data de nascimento deste inigualável irmão preto que dedicou sua vida pela luta em favor da liberdade, justiça e paz para o povo preto em diáspora.
A UCPA promove no dia 19/05/2017 na galeria Olido no centro de São Paulo, a partir das 18hs a atividade "O Legado Pan-africano de Malcolm X".


Evento gratuito dedicado ao povo preto.
Compareçam!
Malcolm X Day - Harlem (NYC)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"O que o revolucionário quer é terra onde possa estabelecer sua própria nação... Malcolm X

"O que o revolucionário quer é terra onde possa estabelecer sua própria nação, uma nação independente... Quem tem medo do nacionalismo preto na verdade tem medo é da revolução. E quem ama a revolução ama o nacionalismo preto".

o maior erro cometido pelas organizações pretas americanas e seus líderes é ... Malcolm X

'Acho que o maior erro cometido pelas organizações pretas americanas e seus líderes é o de não terem estabelecido um contato direto de fraternidade com as nações independentes da África. A cada dia, os chefes de estado pretos africanos deveriam receber relatórios diretos dos acontecimentos nas lutas do homem preto americano, ao invés dos comunicados do departamento de Estado americano para os africanos, sempre insinuando que a luta do homem preto americano está sendo "solucionada".'

Malcolm X

"...Meus lindos irmãos e irmãs pretos! E quando nos referimos a preto... Malcolm X

"...Meus lindos irmãos e irmãs pretos! E quando nos referimos a preto estamos falando de tudo que não é branco, meus irmãos e irmãs! Somos todos pretos para o homem branco, mas temos mil e uma cores diferentes. Olhem só para suas peles! Virem-se olhe para o outro! Que tom de preto africano poluído pelo branco que vocês são? Estão me vendo...pois saibam que as ruas costumavam me chamar de Detroit Red! é isso mesmo! Um demônio estuprador de cabeça vermelha foi meu avô! É tão perto assim! Era o pai da minha mãe!Ela não gostava de falar a respeito. E alguém pode culpa-la por isso? Dizia que jamais vira o pai.E sentia-se contente por isso! E eu me sinto contente por ela!Se eu pudesse tirar todo sangue dele que possui meu corpo e polui minha pele,podem ter certeza que o faria!Porque odeio cada gota de sangue do estuprador que está em mim! E isso acontece não apenas comigo,mas com todos nós! Durante a escravidão...pensem nisso!...foi raro que uma das nossas avós pretas,das nossas bisavós,das nossas tataravós,pudesse escapar ao senhor de escravos estuprador! O senhor de escravos estuprados emasculava o homem preto...com ameaças, com medo...até hoje o homem preto vive com medo do homem branco no coração! E até hoje ainda vive sob os tachões do homem branco! Pensem nisso! Pensem naquele escravo preto cheio de medo e temor,ouvindo os gritos da mulher,da mãe,da filha...sendo estupradas... no estábulo,na cozinha,no mato! Pensem nisso,meus queridos irmãos e irmãs! E vocês também estão com medo do estuprador para fazerem alguma coisa! E a prole dos seus atos ignóbeis e animais,esse homem branco chamou de coisa como "mulato", de tantas outras coisas que ainda nos chamam... a vocês e a mim...quando não estão desdenhosamente nos chamando de "crioulos! Virem-se e olhem para os outros,meus irmãos e irmãs... e pensem nisso! Você e eu,poluídos em todas essas cores... e esse demônio tem a arrogância e o descaramento de pensar que nós,suas vitimas,devemos amá-los!" 


Malcolm X

É um crime a mentira que vem sendo impingida a gerações de homens pretos... Malcolm X

"É um crime a mentira que vem sendo impingida a gerações de homens pretos e também de homens brancos. Crianças pretas inocentes,nascidas de pais que acreditavam que sua raça não tinha história. Crianças pretas vendo,antes de poderem falar,que seus pais consideravam-se inferiores.Crianças pretas inocentes crescendo,desperdiçando suas vidas,morrendo de velhice... e o tempo todo envergonhadas de serem pretas. Mas a verdade está sendo agora revela." 

Malcolm X

sexta-feira, 28 de abril de 2017

19 de Maio: Dia de Malcolm X - "O Legado Pan-Africano de Malcolm X".


92 anos de Malcolm X.

O homem que nasceu um Little, foi "mascote" na infância, 'Detroit Red' na mocidade, um número para o sistema, e sobrevivendo às drogas, corretores de apostas inimigos, policiais, a química 'congo lene', detenção e mesmo ao fogo da Ku Klux Klan, se tornou um dos maiores Nacionalistas Pretos da história. Tão fervorosa e verdadeiramente entregue à luta pelo seu povo que terminou seus dias na terra exercendo a tão árdua quanto honrosa tarefa de lutar pela emancipação de todas as pessoas pretas do mundo. Uma grande referência a todos os Africanos aonde quer que estejam, um grande indivíduo cujo amor por seu Povo Preto era tão grande, que nem ameaças de morte, nem mesmo a própria morte, pôde deter seu legado crescente e de relevância imensurável a várias gerações de pretos e pretas por todo o globo, pessoas que mudaram positivamente as suas vidas e suas percepções de mundo após conhecerem Malcolm X.
Três irmãos referência de luta e diligência pelos seus, de grande estima e competência, vão discorrer sobre aspectos da vasta contribuição ao Pan-Africanismo Nacionalista Preto que Malcolm X nos deixou. Milton Barbosa do Movimento Negro Unificado; Caroline Amanda do Coletivo Negro Carolina de Jesus, da UFRJ; Abisogun Olatunji da União dos Coletivos Pan-Africanistas.
Teremos, ainda, o som de Q.I. Alforria e Rogério Z.L.
Tradicionalmente, todas as atividades que ajudamos a organizar têm o objetivo de fomentar a irmandade prática entre os nossos através da acolhida e participação de todos e todas na organização e desenvolvimento. Portanto, quem puder contribuir com algum alimento para ser consumido no lanche coletivo no ato do evento será de grande valia, seja suco, pão, bolo, biscoito, frutas, à vontade e sem qualquer pressão. E não se preocupem de forma alguma com isso, não há qualquer obrigatoriedade.

Dia 19 de Maio
Horário: a partir das 18:30
Local: Galeria Olido
Avenida São João, 473
São Paulo/SP

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Ella foi a primeira visita - AUTOBIOGRAFIA DE MALCOLM (COLABORAÇÃO ALEX HALEY) FRAGMENTO DO CAPÍTULO DEZ - SATÃ

Ella foi a primeira visita. Lembro de ter percebido que ela fez um tremendo esforço para se controlar e tentar me sorrir, vendo-me no macacão desbotado ordinário, com um número no peito. Nenhum de nós dois conseguia encontrar muita coisa para dizer, a um ponto tal em que cheguei a desejar que ela não tivesse vindo. Os guardas com espingardas vigiavam cerca de 50 presos e visitantes. Muitas vezes, ouvi dezenas de novos presos jurando em suas celas que a primeira coisa que fariam, ao sair, seria tocaiar aqueles guardas da sala de visitas. Todo ódio que sentíamos geralmente se concentrava neles.

AUTOBIOGRAFIA DE MALCOLM 
(COLABORAÇÃO ALEX HALEY)
FRAGMENTO DO CAPÍTULO DEZ - SATÃ

Ella Little-Collins (1914 - 1996)


Ella Little-Collins (1914 - 1996) foi uma ativista afro-americana pelos direitos civis. 
Nasceu em Butler, Georgia. Filha de Earl Little e Daisy Mason-Little.

Foto de Ella e Malcolm - Década de 1940


Ao sair da prisão, a mente tenta apagar a experiência. AUTOBIOGRAFIA DE MALCOLM (COLABORAÇÃO ALEX HALEY) FRAGMENTO DO CAPÍTULO DEZ - SATÃ

Ao sair da prisão, a mente tenta apagar a experiência. Mas não é possível . Tenho conversado com muitos homens que já estiveram na prisão. Sempre achei interessante verificar que muitos detalhes dos anos na prisão foram inteiramente apagados de nossas mentes. Mas, em todos os casos, pode-se descobrir uma coisa: um ex-preso jamais consegue esquecer as grades.

AUTOBIOGRAFIA DE MALCOLM 
(COLABORAÇÃO ALEX HALEY)
FRAGMENTO DO CAPÍTULO DEZ - SATÃ

Shorty não sabia o que significava “concomitantemente” - AUTOBIOGRAFIA DE MALCOLM (COLABORAÇÃO ALEX HALEY) FRAGMENTO DO CAPÍTULO DEZ - SATÃ

Shorty não sabia o que significava “concomitantemente”.
A velha mãe de Shorty conseguiu de alguma maneira arrumar o dinheiro para a passagem de ônibus de Lansing para Boston. Visitando-o constantemente na cadeia, enquanto esperávamos o julgamento, ela lhe dizia, a todo momento:
_ Filho, leia o livro das Revelações e reze a Deus!
Shorty passou a ler parte da Bíblia (o Livro do Apocalipse). Chegou mesmo a um ponto em que volta e meia ficava de joelhos, rezando como algum diácono batista negro.
Finalmente fomos julgados e chegou o momento de ouvirmos a sentença, noTribunal do Condado de Middlesex (creio que das nossas acusações eram por crimes cometidos nesse condado). A mãe de Shorty estava soluçando, abaixando e levantando a cabeça para o seu Jesus, sentada perto de Ella e Reginald. Shorty foi o primeiro a receber a ordem de ficar de pé para ouvir a sentença.
_ Acusação um, de oito a dez anos...
_ Acusação dois, de oito a dez anos...
_ Acusação três...
E finalmente o juiz declarou:
_ As sentenças serão cumpridas concomitantemente.
Shorty, suando tanto que o rosto preto parecia estar coberto de vaselina e sem compreender o que significava “concomitantemente”, havia somado mentalmente as sentenças e chegara à conclusão de que teria de passar mais de cem anos na prisão. Começou a chorar desesperadamente, as pernas bambas. Os guardas tiveram que se adiantar para ampará-lo.
Em oito a dez segundos, Shorty se tornara tão ateu quanto eu fora desde o início.

AUTOBIOGRAFIA DE MALCOLM 
(COLABORAÇÃO ALEX HALEY)
FRAGMENTO DO CAPÍTULO DEZ - SATÃ


Malcolm com 15 anos com sua irmã Ella e amigos nesta foto de 1941, no parque em Boston

Malcolm com 15 anos com sua irmã Ella e amigos nesta foto de 1941, no parque em Boston.